
USDT e USDC procuram representar o mesmo dólar. BRZ, BRL1, BRLA, BBRL e MBRL procuram acompanhar o mesmo real.
Se a análise terminasse na cotação, escolher entre elas pareceria quase irrelevante, e é justamente por trás da cotação que estão as diferenças mais importantes.
Cada stablecoin tem um emissor, uma composição de reservas, regras de emissão e resgate, redes disponíveis, níveis distintos de liquidez e uma estratégia própria de distribuição.
Essa distinção ganhou peso à medida que o mercado cresceu. Em meados de 2026, a capitalização global das stablecoins estava por volta de US$ 290 a 315 bilhões, conforme o agregador e a metodologia.
O USDT lidera com participação estimada entre 59% e 64%, e somado ao USDC concentra algo entre 83% e 89% do mercado.
As diferenças entre fontes vêm dos universos de tokens e critérios de cada provedor, mas a leitura é consistente, dois emissores de dólar dominam a categoria.
No Brasil, as stablecoins de real operam em escala muito menor, mas o número de iniciativas aumentou, e BRZ, BRL1, BRLA, BBRL e MBRL mostram que também existem diferentes maneiras de colocar o real em redes blockchain.
Para uma empresa, portanto, dizer apenas que usa stablecoin informa pouco, e a pergunta mais útil é qual stablecoin está sendo usada, como funciona e qual função cumpre na operação.

O preço é parecido, a estrutura por trás pode ser bem diferente
Uma stablecoin busca estabilidade em relação a um ativo de referência, com o USDT e o USDC próximos de US$ 1 e o BRZ ou BRL1 próximos de R$ 1.
Isso não significa que exista uma nota guardada em conta para cada token. No caso das fiduciárias, os emissores administram reservas que podem incluir depósitos, títulos públicos de curto prazo, compromissadas e outros ativos líquidos, com o objetivo de sustentar as obrigações dos tokens emitidos.
O USDC é respaldado por caixa e equivalentes altamente líquidos, com a maior parte das reservas no Circle Reserve Fund, um fundo de mercado monetário governamental registrado nos EUA e administrado pela BlackRock.
A Tether segue outra composição, afirmando lastro integral e publicando relatórios periódicos, com uma estrutura mais diversificada que a do USDC, que inclui, além de instrumentos do Tesouro e caixa, outras classes como ouro e Bitcoin.
A paridade mostra o objetivo do token, enquanto a reserva mostra parte importante do risco por trás dele.

Como cada emissor compõe a reserva:

USDT e USDC dominam o dólar digital por caminhos diferentes
Apesar de dezenas de concorrentes, os dois continuam representando cerca de quatro quintos da capitalização.
O USDT, da Tether, lidera com ampla margem e está presente em exchanges, carteiras, mesas OTC, protocolos e serviços de pagamento, com Ethereum e Tron concentrando grande parte da circulação.
O USDC, da Circle, tem menor capitalização, mas estrutura voltada ao mercado institucional, com emissão e resgate ligados à companhia e reservas mais concentradas em caixa e instrumentos de curto prazo.
Para uma empresa, isso pode importar mais que pequenas variações de cotação, porque a escolha depende de onde está a liquidez, quais redes e contrapartes são usadas, como funciona o resgate e qual estrutura de reservas atende à política de risco. Nenhuma característica torna um token automaticamente superior ao outro para todos os casos.

O mercado de dólar tem outras estratégias além de USDT e USDC
A concentração não impediu novas empresas de ocupar nichos. O PYUSD combina emissão pela Paxos com a distribuição do PayPal, o RLUSD, da Ripple, tem foco institucional e em pagamentos internacionais, e o USDG, também da Paxos, permite que parceiros de distribuição participem da economia gerada pelas reservas.
Há ainda estruturas à parte das fiduciárias tradicionais, porque USDS e DAI usam colateralização com ativos digitais e do mundo real, enquanto o USDe combina colateral e derivativos.
O resultado é uma categoria em que tokens próximos de US$ 1 podem carregar riscos bem diferentes, e para quem administra tesouraria ou constrói produto, stablecoin de dólar deveria ser o início da análise, não a conclusão.
As outras estratégias citadas no mercado de dólar:

No Brasil, diferentes projetos estão colocando o real on-chain
O mesmo fenômeno aparece em escala menor com o real. A BRZ, da Transfero, existe desde 2019, busca paridade 1:1 por emissão e queima conforme a demanda, e informa lastro equivalente em BRL, reservas e auditorias independentes, em diferentes redes.
A BRL1 é de um consórcio de Bitso, Foxbit, Mercado Bitcoin e Cainvest, com reservas em títulos públicos indexados à Selic, compromissadas e recursos em instituições reguladas, e um caso de uso em que a entrada de reais gera emissão de tokens para parceiros habilitados, com o inverso envolvendo queima e liquidação em moeda local.
A BRLA, da Avenia, busca paridade 1:1 com reservas em ativos regulados, incluindo títulos públicos, e foco em infraestrutura B2B, pagamentos e operações internacionais.
A BBRL, do Grupo Braza, parte de uma instituição com origem no câmbio, foi lançada no XRP Ledger e depois expandida, com foco institucional.
E a MBRL, do Mercado Bitcoin, mantém a relação de 1 para R$ 1 com gestão e custódia pela MB Pay, instituição de pagamento do grupo, e a documentação prevê relatórios mensais de comprovação do lastro, sem que se possa presumir a frequência atual.
O mercado brasileiro ainda é pequeno perto do de dólar, mas já tem variedade suficiente para mostrar que stablecoin de real também não descreve uma estrutura única.
Os cinco projetos de real on-chain citados:

Dólar e real on-chain atendem necessidades diferentes
A moeda de referência determina uma diferença fundamental. Quem mantém USDT ou USDC adota o dólar como unidade de conta, útil para pagamentos internacionais, liquidez global e operações entre plataformas.
Uma stablecoin de real preserva a unidade de conta em BRL, e serve para movimentar reais on-chain ou manter capital em moeda brasileira sem exposição cambial desnecessária.
No mercado brasileiro, a conexão com Pix aproxima os dois ambientes, porque em certas estruturas institucionais reais entram pelo sistema bancário e resultam em emissão de tokens, com o resgate no caminho inverso.
Assim, real e dólar on-chain não precisam disputar a mesma função, uma representa a moeda operacional local e a outra atende liquidez ou compromissos em dólar, e para algumas empresas fazer as duas coisas na mesma estrutura importa mais do que escolher uma única stablecoin.
Para empresas, flexibilidade pode valer mais que escolher um vencedor
Diante de tantas opções, escolher um ativo apenas por popularidade ou capitalização é insuficiente, porque quem emite, o que há na reserva, como funciona o resgate, onde está a liquidez e em quais redes o token circula mudam o perfil de risco de cada um.
E o mercado global continua concentrado em duas stablecoins de dólar, enquanto o brasileiro ainda testa modelos para representar o real on-chain, com a distribuição podendo mudar conforme liquidez, regulação, integrações e casos de uso evoluem.
Por isso, uma empresa que constrói produtos financeiros pode ter mais flexibilidade operando sobre uma infraestrutura capaz de trabalhar com diferentes ativos do que ficando dependente de uma única stablecoin.
É nessa camada que atuamos, na DominiPay, com uma proposta white label que permite ao parceiro preservar a marca e a relação com o cliente enquanto usa uma infraestrutura preparada para integrar moeda local e ativos digitais, com liquidez, custódia, conversão e compliance de acordo com o escopo contratado.

No contexto brasileiro, o Pix participa da entrada e da saída em reais, enquanto stablecoins de BRL e USD atendem funções diferentes, e a escolha do ativo acompanha moeda de referência, liquidez, contraparte, rede e finalidade.
Essa abordagem preserva o posicionamento agnóstico da infraestrutura, porque em vez de transformar a escolha de um token em aposta sobre qual dominará o mercado, a empresa mantém a capacidade de adaptar a operação conforme as condições mudam.
O valor de R$ 1 ou US$ 1 conta apenas parte da história
USDT e USDC representam aproximadamente o mesmo dólar, e BRZ, BRL1, BRLA, BBRL e MBRL o mesmo real, mas a semelhança termina quando a análise passa da cotação para a estrutura, porque mudam o emissor, as reservas, a governança, as redes, a liquidez e os caminhos de emissão e resgate.
Para empresas que usam stablecoins em pagamentos, liquidação ou tesouraria, isso importa mais do que identificar qual token tem maior capitalização, e a pergunta deixa de ser apenas qual stablecoin usar para incluir para qual função, com qual contraparte e sob qual estrutura.
Se dois tokens procuram representar exatamente a mesma moeda, sua empresa sabe o que realmente muda quando escolhe um deles?
Publicado originalmente no LinkedIn da DSEC Labs.
